quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Tu


O céu não possui o mesmo brilho quando não estais aqui
Os sabores deixam de ser sabores
As cores nada são
Tu
Somente tu
Poderia entrar por essa porta
E me trazer de volta a vontade de viver.


Imagem: Julinha Moreira

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Trecho III

Era difícil ser mulher e, principalmente, acreditar em tudo aquilo que nunca entrara em contato com o seu próprio coração. Acreditar somente é o necessário instrumento para aqueles que nunca puderam experimentar o que é, em sua essência, estar em contato íntimo com a vida.

Trecho II


Ela mesma espantada com todas as coisas que fora capaz naquela noite de luta feroz: a vida poderia ser compreendida agora diante dos seus olhos que brilhavam ainda. Helena era, sem dúvidas, a mais charmosa de todas as senhoras que costumavam participar do coral na igreja. Por que ela não poderia arranjar um rapaz à sua altura? - ela era de toda uma sofisticação e, por isso, nem ligava para o que diriam a respeito do seu homem: ele a amava e isso era já o suficiente, com certeza. Dilatava-se toda entregue àquele fogo que consumia cada parte do seu corpo. Ela, deixando-se levar, já embebida pela saliva quente do rapaz quase em êxtase, foi sendo aos poucos reerguida para uma espécie de grandeza que era, no fundo, a vida - uma grandeza absurda com certeza. Uma brisa atravessava agora o quarto e acendia ainda mais tudo o que ali, há pouco, fora vivido: seria Deus o responsável por todo aquele sentimento? E não havia resposta alguma.

Trecho I


Quando criança, ouvira da irmã mais velha que a coisa mais importante que existia no mundo era, sem dúvidas, o Amor. Naquele tempo, Helena ainda com os seus oito ou nove anos não entendia bem o que aquilo queria dizer, mas, a sua irmã parecia radiante diante dessas palavras que ficavam horas e horas soando-lhes à face: “Amor! Amor! Amor!” E Helena ainda mirrada, nem se preocupava com essas coisas. Somente agora - lá se vão quase trinta anos - ela pôde, finalmente, saborear aquilo que a sua irmã tanto lhe falava, falava, falava há muito tempo. Helena pensava agora em casamento e, também, em noites intermináveis ao lado daquele que, com certeza, era a sua grande alma gêmea. Sentia-se meio abobalhada por acreditar nessas coisas - “mas a vida toda é uma grande bobagem“, gritava ela para si mesma: “eu quero mais é viver esse sentimento absurdo“, justificava-se. Não precisaria mais ir aos encontros de quinta-feira com as amigas da igreja pois, agora, ela tinha um homem.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Aquilo que escrevo



O valor do que escrevo não está naquilo que eu quis dizer, mas no que, efetivamente, eu disse. O que não me leva a nada; o que também não o levará a nada, e somente assim aprendemos a viver. De repente, dois jovens diante do mar. E a minha escrita estará ali. De repente, a lágrima de mãe desesperada. E a minha escrita estará ali. A minha escrita se funde ao mais tenro azul que se mistura ao céu no infinito. Mais valem palavras soltas que a minha própria escrita.
Toma a minha escrita como um beijo no rosto morto. Tomai e comei porque a minha escrita é tal como o meu próprio corpo: vazio.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Felicidade


A felicidade tranquila daqueles que amam.
É mesmo possível que toda esta desorientação a que tenho me entregue seja mesmo tomada pela felicidade tranquila daqueles que amam?
Nunca ninguém me assombrou tanto e tanto.
Vejo o vento frio rebentando o meu coração e o teu rosto, aos poucos, dissolvendo-se no escuro grande da noite.
Como saber se devo mesmo me entregar ao sonho ou à realidade?
Tenho me sentido livre ao teu lado e só.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A árvore e a mosca


Cansada de observar uma pequena mosca que saltava por entre seus galhos pra cima e pra baixo, a árvore disse esnobe: “pobre mosca... pra quê tanta pressa se tua vida és tão breve? Basta apenas o cair da noite para que sua existência se acabe e, no entanto, há muito vejo-a saltando de um lado para o outro – cansando suas pobres asinhas... Devias ser como eu, uma árvore, com dezenas de anos por viver e, então, poderias tu saber o que é viver mais...”. A pequena mosca, ao ouvir sua amiga árvore, aproximou-se dela e disse-lhes baixinho: “ainda que eu não tenha dezenas de anos por viver, minha cara amiga árvore, eu possuo um par de asas e pés soltos do chão. Com isso pude ver quão belo é o orvalho da madrugada, o nascer do sol, sentir o aroma e observar de perto a estrutura perfeita das flores... com minhas asinhas, minha amiga árvore, eu pude ver do alto a linha do horizonte e me banhar nas águas frescas do riacho... meu único dia de vida, minha amiga, certamente mais valeu que seus muitos anos de existência”.

Moral da história: Não vive mais quem mais vive, mas quem melhor vive.

De manhã


De repente, silêncio. Em seguida, Ângela mastigando. Agora o pai vira a página do jornal e um carro atravessa a avenida distante. O pai tomando mais um gole de café, Ângela mastigando a torrada com enorme prazer, os passos da empregada que estava sempre por fazer alguma coisa - outro carro atravessando a avenida -, a vida seguindo sempre o seu curso natural. Ângela colocou um pouco mais de café e olhou o relógio que caminhava impaciente.

Trecho do Romance "Força Viva de Um Inferno" (Em construção)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Mas há a esperança.


Não, meu amor, não repitas estes versos tristes que tanto assolam o nosso peito e nossas almas.
Não vês que o futuro é tão breve?
Bastam alguns segundos para que ele chegue até nós.
Basta o rebentar de algumas ondas.

Há ainda a esperança, bem sei.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O que fazer agora


Depois comprou um sorvete e ficou como boba chorando e tomando sorvete.

Lembrou-se que, desde pequena, tanto ela quanto todas as suas irmãs esperavam encontrar o homem que lhes fizessem felizes por toda a vida; desde que entrara na escola, no entanto, muitas coisas foram mudando - inclusive o próprio mundo do qual elas faziam parte: as buscas foram se tornando outras, as prioridades também seguiram rumos diferentes. As suas irmãs casaram e tiveram filhos; ela, no entanto, a mais nova, formou-se primeiro e conquistou uma carreira desejável para uma pessoa com a sua idade - só depois vieram o casamento e os filhos. Sentiria saudades, sim, mas não somente do casamento - sentiria saudades de todas as coisas que vivera e do tempo em que esteve entregue a uma vida inteiramente completa. O casamento, os filhos, a carreira - tudo estava já conquistado: não havia mais o que fazer da sua vida agora.

Do conto "A Busca" (2009).

O que me liga ao mundo


O que me liga ao mundo então?

Talvez esse coração que bate como num asfalto quente. Os carros passando muito apressados, as árvores que se estendem até a linha do horizonte, as pessoas que dormem, dormem, dormem. Estou acordado, bem sei; mas sinto como se o mundo todo à minha volta vivesse numa madrugada sem fim.

Do conto "Delírio" (2009).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Mas aquela sensação absurda: aquela vontade de estar mais e mais perto me deixava cada vez mais aflito. Tão somente a amizade não me bastava: a amizade era muito pouco para os planos que tanto imaginei para nós. Lancei-me finalmente, numa das nossas inúmeras noites e você, meio assustado, respondeu-me que sim. Beijamo-nos. Depois de tantas semanas de espera, de inquietações, beijamo-nos finalmente e era como se o mundo todo estivesse tão somente debaixo dos nossos pés.

Do conto "Delírio" (2009).